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Ícone do jornalismo esportivo cearense, PC Norões deixa a TV e agora está em outra área


Um dos rostos mais conhecidos da televisão cearense deixou a telinha e o jornalismo esportivo. Foram 27 anos dedicados às reportagens, comentários e transmissões esportivas. Paulo César Norões foi alçado a diretor do Sistema Verdes Mares e também migrou para o jornalismo político. Agora, assina a coluna de política no Diário do Nordeste.
Filho de Edilmar Norões, um dos maiores nomes do jornalismo cearense, PC Norões recebeu o Blog em sua sala, que foi de seu Pai, na TV Verdes Mares. A conversa durou mais de uma hora. Sempre sorridente, atendeu duas ligações no celular, ouviu tocar outras dez vezes e recebeu dúzias de mensagens. PC, como é chamado pelos colegas, é o jornalista cearense com o maior número de seguidores nas redes sociais. Só no Twitter são quase 70 mil.
A fama não foi conquistada repentinamente. De estagiário, passou por produtor, repórter, apresentador, editor, chefe de redação, estagiou na Globo e por último chefiava a equipe de esportes da TV Verdes Mares. É jornalista formado na Estácio-FIC. Cobriu quatro Copas do Mundo, criou e apresentou o Debate Bola na TV Diário. Também foi repórter e apresentador na Rádio Verdes Mares. Tinha uma coluna semanal de esportes no Diário do Nordeste, além de um programa semanal na Verdinha. E ainda era comentarista da TV Verdes Mares e dos canais por assinatura Sportv e Premierer, do grupo Globosat. Foi escolhido por unanimidade para ocupar a cadeira de número 3 na Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, que era do seu Pai. PC ainda foi candidato a vereador em Fortaleza na década de 1980.
Durante a entrevista, não revelou o time que torce, disse que não tem pretensão de morar em outra cidade, é casado com a jornalista Simone Morais há 25 anos e falou que se inspirou nas reportagens de Marcos Uchôa e Tino Marcos.
Você era um dos principais ícones do jornalismo esportivo no Estado do Ceará. Por que sair do esporte?
Eu estava muito bem no esporte. Feliz com o que eu fazia, mas eu recebi um convite para desenvolver um novo trabalho, que vai além da coluna política. Na verdade, a coluna é apenas uma das vertentes deste trabalho. A gente está com uma missão bem maior. Foi algo que me honrou, que me estimulou bastante pela confiança depositada pela empresa no meu trabalho. E assim, por mais que a gente esteja satisfeito com o que faz, às vezes, quando aparece uma oportunidade para você dar uma guinada de 180 graus na sua vida, você aproveita. É uma forma de você se reinventar. De certa forma, às vezes, você passa numa mesma função e de repente sem nem perceber, você entra numa zona de conforto e bem que acomoda um pouco. Essas oportunidades são bem-vindas, e você dá uma chacoalhada para uma nova vertente. Eu estou muito feliz com essa decisão. É verdade que estou com um pouco de saudade do que fazia, afinal foram 27 anos de televisão, na TV Verdes Mares, na área de esportes, geralmente, com passagens na chefia de redação. Passei por todas as funções na área de esportes também. Passagem na TV Diário, as relações com o Sportv e com a Globo. Enfim, foram muitas conquistas. E há momentos em que você precisa tomar decisões. E toda decisão traz o ônus e o bônus. Aí você tem que colocar na balança e ver o que pesa mais. Nesse caso, foi uma boa para mim. Eu acabei aceitando.
Você falou nas conquistas. Quais foram?
O crescimento profissional. É muito bom a gente poder galgar, fazer uma carreira, onde não só você, mas como você percebe o seu próprio crescimento. Como o trabalho que você faz, ganha repercussão. É um atestado de sua evolução. Então você começa ali, como estagiário, aí passa para repórter, depois tem oportunidade como produtor, como editor. Enfim, você vai galgando posições e vai percebendo que na medida em que vai exercendo essas funções, vai ganhando mais experiência e ao mesmo tempo pela confiança que vão depositando em você, percebe que está fazendo a coisa certa. No meu caso, além da confiança interna, vinha também o reconhecimento do trabalho externamente. Porque como a gente trabalha numa função pública, apesar de ser uma empresa privada, todo o seu trabalho não é avaliado apenas internamente, mas pelo público também. Então eu posso dizer que fui muito feliz. Eu saí de um estagiário em 1989 para um profissional que tinha espaço na maior rede de televisão da América latina, a quarta do mundo, tinha espaço no Sportv, o maior canal de assinatura de esportes do País, nos canais Premiere e crescendo sempre dentro da empresa onde eu trabalho, na TV Verdes Mares, no Sistema Verdes Mares de Comunicação. E o crescimento vai se materializando no que você vai fazendo ao longo da carreira. Eu extrapolei muito os limites iniciais locais. Eu fui a quatro copas do mundo, na verdade a três, uma veio até a gente. Fiz duas copas das confederações, duas copas América, mundial de futsal, cobri ‘n’ eventos internacionais, acompanhei a carreira de vários cearenses que brilharam mundialmente: Franco e Roberto, Tita Tavares, Fabinho Silva, Dani Monteiro, que virou estrela na Globo. Enfim, foram muitas coisas que a gente vivenciou e que nos deu a satisfação de primeiro poder estar fazendo isso. E ainda perceber que seu trabalho era reconhecido pelo público e também pelas pessoas que estavam acima de você no organograma da empresa. Foi muito bacana.
Interessante. Mas você não tinha mais sonhos? Como é que está hoje esse relacionamento? Essa saudade do esporte, dessas conquistas?
Está tranquilo. Não sei se é porque passei tanto tempo fazendo esportes. Mas também existe as novidades da nova função. Então você se prende muito mais ao novo, que você está vivenciando e não sobra muito tempo para ficar lamentando com o que passou. E eu sou assim também no lado pessoal. Do passado, eu fico com as boas lembranças. Eu procuro deixar de lado o ruim, que serve como experiência. Isso eu tenho como filosofia de vida. Eu olho muito para frente. De trás, eu trago as coisas boas. Sou saudosista das coisas boas. Mas estou sempre olhando para frente, querendo mais. Quando decidi que ia sair do esporte, eu fui com muita convicção, não fiquei me lamentando. Quando a gente tem convicção naquilo que a gente faz, não sobra tempo para se lamentar. Eu queria fazer aquilo naquele momento. Como disse antes. Toda decisão gera o ônus e o bônus. Neste caso, o bônus é maior que o ônus. Aí você me pergunta: “e o esporte, abandonou? Nem olha mais?”. Olho, mas não tenho mais aquele olhar apurado que tinha antes. Porque agora tenho de olhar para as outras coisas. A política me toma muito tempo. As outras funções internas aqui dentro do Sistema Verdes Mares, eu tenho de dar uma atenção maior. Então eu não tenho mais aquele acompanhamento de especialista que eu tinha de ter até o momento em que estava com o esporte. Mas de maneira alguma, eu deixei de acompanhar. Adoro o esporte, nasci dentro do esporte, vivenciei profissionalmente dentro do esporte e vou continuar gostando. Assisti às olimpíadas, torci pra caramba, acompanho da maneira que dá. No máximo que posso, ainda acompanho os jogos do Ceará e do Fortaleza. A Seleção Brasileira. Não acompanho mais os bastidores. Mas no geral, eu estou ligado.
Volto já para o esporte. Qual sua função agora no Sistema Verdes Mares?
O nome do cargo é diretor de relações institucionais, programação e jornalismo do Sistema Verdes Mares. Isso inclui fazer uma função institucional, o que dispensa apresentações. Programação e jornalismo é mais uma função de coordenação geral. Porque cada veículo tem seu gestor, tem seu diretor de área. E a gente faz essa coordenação tanto na programação da TV Verdes Mares, como na TV Diário, nas duas rádios, aqui em Fortaleza, e nas emissoras que a gente tem fora do estado. No Diário do Nordeste, a gente está com uma coluna política. Então um lado da função é gerenciar, é coordenar. No outro, é a prática no dia a dia do jornalismo na parte da política com a coluna.
E o que mudou no dia a dia? No esporte, havia jogo aos fins de semana. Durante a semana, terminava meia-noite. Como é agora a tua agenda?
Mudou um pouco na rotina do dia a dia. Fisicamente não mudou, porque eu venho para o mesmo lugar que trabalho há 27 anos. Então é o mesmo ambiente de trabalho. Mudou a sala e o local dentro da empresa. Mas é o mesmo lugar, as mesmas pessoas. Eu não me afastei das redações. Eu vejo todo mundo das redações todos os dias, falo com eles. Isso segue do mesmo jeito. Mas mudou um pouco a rotina, porque agora há muitas reuniões. Como são muitas áreas envolvidas, tem de estar em contato constante com todas essas áreas, avaliando, propondo, ouvindo, cobrando, prestando contas com a superintendência. Enfim, tem um lado de gestor nessa rotina. E a de jornalista, que eu tenho de manter contato diariamente com as fontes, ficar antenado com o que acontece na política para poder escrever a coluna. Eu digo que a coluna é o compromisso maior que tenho diariamente, porque é a única coisa que não posso deixar para amanhã. Qualquer reunião, eu posso adiar para o dia seguinte, mas a coluna tem de estar impecavelmente pronta no início da tarde e começo da noite.
Quando você era do esporte, era comum você falar com jogadores, treinadores e dirigentes para fazer a sua coluna no Jogada (caderno de esportes do Diário do Nordeste) e seus comentários na TV. E agora como é essa relação com os políticos?
Eu não posso ficar dependendo apenas da informação de terceiros. A gente tem de, na medida do possível, estar em contato com fontes repercutindo aquelas coisas que acontecem. A coluna vai muito pelo lado analítico e também dos bastidores. Ela foge um pouco da notícia em si para a repercussão da notícia, ou aquilo que não está contada na matéria. Para isso, eu tenho de estar antenado com os atores da política. Sejam eles os próprios políticos, os colegas, que estão no entorno, as pessoas do meio. Enfim, a gente sempre tem de estar em contato para ter o feedback. Mas isso não muda com relação ao esporte. Isso é jornalismo. No esporte, eu tinha de estar em contato com dirigentes, atletas, com outros colegas. E o jornalismo não muda. Apesar de várias editorias, o jornalismo é um só. Só que a diferença é um pouco maior em relação ao esporte e à política. No meu caso, que cobria mais futebol, os maiores personagens aqui no estado se resumem a Ceará e Fortaleza, que são os carros chefes das coberturas. É claro que a gente também conversava com outras pessoas, de outros times e esportes, mas o principal era estar antenado com o que acontecia no Ceará e no Fortaleza e um pouco menos na Federação. Que são os três aqui. Aí você pegava uma coisa do Icasa, do Ferroviário, outra coisa ali dos outros clubes. Assim como antenado panoramicamente em outros esportes. Mas o foco mesmo era Ceará e Fortaleza. Na Política, o espectro é muito maior. Então você divide em Nacional, que incide sobre a política local. Tem de estar antenado com o que acontece em Brasília, que muitas vezes reflete no dia a dia do cidadão aqui no Ceará. Você tem a política estadual e municipal. Então você tem um leque muito vasto de pessoas, que você tem de estar em constante contato, ou pelo menos não perder de vista para não ficar para trás.
Voltando um pouco para o esporte. Qual foi a matéria que te marcou?
Eu vou falar algumas e destacar por setor. Porque elas têm importância igual, mas com características diferentes. Por exemplo, eu tenho uma grande matéria internacional, que eu fiz retratando a capoeira na Europa. Um trabalho feito por cearenses capitaneado pelo Mestre Paulão/Ceará. Além de tudo é um amigo. Um cara que quando começou no Grupo Capoeira Brasil, eu estava começando como repórter. Então eu acompanhei toda a evolução desse trabalho dele aqui em Fortaleza e depois quando ele foi para a Europa com a cara e a coragem. Quando fui lá, fazer a matéria, eu encontrei 16 países praticando a Capoeira. O curioso é que ele levou pessoas daqui. Na maioria, pessoas de baixa renda, que não tinham oportunidades na vida. Virou inclusive um trabalho social. Ele levou a capoeira e ainda deu oportunidade de realização para muita gente, que se ficasse aqui não iria sair do lugar. E eu fiz essa matéria que ficou muito bacana. Ela foi exibida no Esporte Espetacular, no Sportv, mostramos aqui no Globo Esporte. Então talvez não tenha sido a matéria de maior repercussão que eu fiz, mas me deu muito prazer e certamente foi uma das grandes matérias que mais gostei de fazer. Outra matéria interessante, do ponto de vista jornalístico, foi sobre o gol do Tiquinho. Talvez não tenha sido o gol mais importante da história do Ceará Sporting Club, mas com certeza o mais mitológico e por consequência um dos mais lendários do futebol cearense. Por tudo o que representou, o gol do Tetra, do Tiquinho, de 1978. Até então não havia a discussão sobre o Penta do Ceará de 1915 a 1919. O próprio Ceará reconhecia que era a primeira vez que um clube chegava a um tetracampeonato. E foi de uma maneira especial, no último minuto, num Clássico-Rei, no terceiro jogo seguido e foram jogos duríssimos. Depois desse gol, o Tiquinho viveu com isso até morrer. Ele morreu meses depois que eu mostrei essa matéria. Então o que aconteceu: havia quatro tvs mostrando, filmando esse jogo e nenhuma das quatro tinha o gol. Eu vasculhei em todo canto. Porque esse gol virou uma lenda. Ele ficou imortalizado na narração épica do Gomes Farias. E você tirando as 40 mil pessoas, que estavam no estádio naquele dia, e muitas outras que viram na TV no outro dia, aquele gol ficou apenas numa vaga lembrança. E só. Porque quem nasceu depois, ou era menino na época, ficou apenas com a imaginação da narração do Farias. E as pessoas cobravam muito. Teve uma época em que eu fazia o Debate Bola (na TV Diário), tinha um quadro de memória, que eu resgatava momentos do futebol cearense, gols inesquecíveis, cenas antológicas e tal. Todo domingo tinha esse quadro. E toda vez tinha essa cobrança: “pô, cadê o gol do Tiquinho? Você mostra tudo, só não mostra o gol do Tiquinho!”. Até que eu procurei, procurei e não achei. Fui às outras emissoras e não achei. Fiz um apelo público no programa pedindo para quem tivesse a gravação do gol – para eu poder mostrar no Debate Bola. Aí me ocorreu de eu pesquisar junto ao pessoal da Globo, lá no Rio. A Globo talvez tenha o maior acervo de vídeo do país. E eu tentei por aqui, mas o pessoal sem tempo, até tentava, mas não encontrava. Então tive uma demanda, no Rio, e fui lá, pesquisar no Cedoc (centro de documentação da Globo). Arrumei um amigo e disse que ele tinha de me ajudar. Enfim, voltei. Aí cerca de um mês depois, ele me ligou e disse: “achei!”. Ele ainda falou que encontrou mais lances, uma confusão entre os jogadores. Pedi para ele mandar e chegou. Curiosamente, faltavam uns 15 dias para fazer 30 anos do gol. Era 2008. Aí eu disse: pronto, tem uma data fechada, agora é esperar. Aí fui fazer a matéria. Reuni o Gomes Farias e peguei um torcedor que estava no jogo. Enfim, contei a história do gol. Talvez não tenha sido a matéria que eu tenha feito com mais repercussão em 27 anos de carreira, mas sem dúvida alguma, foi a que eu tive mais feedback. Porque o meu telefone não parou. Amigos, pessoas que conseguiram o número do telefone me ligavam, me agradeciam, diziam que eu estava realizando um sonho deles. Era algo que impressionava. E eu realmente fiquei emocionado. Então essa matéria é inesquecível nesse sentido. A gente conseguiu fazer algo arqueológico, algo que estava perdido, mas que teve uma repercussão imensa. A tal ponto de eu ter sido convidado para fazer parte do filme oficial do centenário do Ceará Sporting Club, para eu dar um depoimento sobre o gol. Enfim, eu catalogaria essas duas matérias como as principais de televisão.
PC, você também foi do Rádio…
Ah, um detalhe que eu queria destacar nas matérias de Televisão. Quando fui repórter da TV Verdes Mares e estava fazendo mais matérias para a rede, eu sempre fui muito apegado às coisas da terra. Sempre fui muito bairrista, no bom sentido. No sentido de valorizar as nossas coisas, o nosso jeito cearense de ser. Então eu sempre dava um jeito de incluir nas matérias com alcance nacional um elemento da cultura cearense. Então teve matéria minha com o Fágner, teve matéria com os humoristas. Por sinal, eu tive uma matéria com a seleção brasileira de vôlei. Acho que em 2000 ou 1999, era treinada pelo Bernardinho e viria a ser depois campeã olímpica. A Globo me pediu para eu fazer a recepção da seleção no aeroporto. O time estava fazendo alguns amistosos pelo Nordeste e iria jogar aqui em Fortaleza. E a Globo me pediu para fazer algo diferente, porque não queria ser repetitivo como foi nas outras capitais. Então eu chamei o Paulo Diógenes, com a personagem Raimundinha, e o João Neto, que fazia o Zé Modesto. Eles receberam a seleção. A Raimundinha deu logo um beijo no Bernardinho, foi muito hilário, muita comédia. Eu consegui ainda que eles fossem no ônibus da seleção para fazer uma espécie de “city tour” por Fortaleza. E rendeu um material fantástico. E acabou projetando os nossos humoristas. A matéria saiu do lugar comum e fugiu daquela coisa de colocar só repentista, que era a moda. Embora o Luizinho de Irauçuba tenha tido muito espaço em matéria da gente.
Voltando ao futebol. Meu vizinho veio me perguntar sobre jornalistas que torcem por times de futebol. Ele disse que você torce para o Ceará. Outro amigo garante que você é Fortaleza. Tem um lado bom nessa divergência?
Eu acho ótimo. Adoro quando estão discutindo sobre isso. Hoje mesmo, passei por um grupo de trabalhadores, quando estava indo almoçar. E na rua, eles cobraram: “cadê você? Nunca mais te vimos na TV”. Aí eu falei que estava em outra área e depois eles começaram a falar: “ele é Ceará”, dizia um. “Não, ele é Fortaleza”, dizia outro. Aí olharam para mim e questionaram: “afinal, você é o que?”. Eu respondi: “sou Verdes Mares. Mas adoro ver vocês discutindo isso”. É sinal de que não há nenhuma evidência. Quem me conhece sabe qual time torço, embora eu seja um torcedor não passional. Nunca fui passional. Eu sempre fui um cara muito razão. Então não sou chorão e nem muito vibrador.
E essas críticas de torcer por um ou outro te atrapalharam alguma vez?
Não. Eu nunca me preocupei com o que vão falar do que eu comento. Porque eu cheguei a essa conclusão desde cedo, quando era repórter, isso ajudou muito, pois eu convivia sempre nos clubes. Eu ia todos os dias ao Ceará, ao Fortaleza e ao Ferroviário. Eu tinha uma noção exata do comportamento e como eram parecidos os torcedores. Eu diria que só mudam a camisa. São todos iguais. Mesma coisa. E isso me deu uma noção muito boa. Quando virei comentarista, coloquei logo uma coisa na cabeça: não tente agradar nem A nem B. Porque você não vai conseguir agradar a nenhum dos dois. Seja fiel ao que você acha. Prima pela opinião que você tem e morra com ela. Isso alcança o que eu acho essencial na carreira de um comentarista, não só de esportes, mas de qualquer área, que é a coerência. Com a longevidade do trabalho, com o dia a dia, as pessoas vão começando a identificar quem é você realmente. Se você tem uma opinião hoje e amanhã muda radicalmente, sem dar ao torcedor, no caso, o ouvinte, leitor ou telespectador a chance de entender o motivo da mudança de opinião, porque você pode mudar de opinião, desde que você tenha de embasar essa sua opinião, tem de explicar. Porque os fatos podem mudar. Agora o que não posso é dizer que o azul é a cor mais lida do mundo e no dia seguinte dizer que é o amarelo. Sem nenhuma razão plausível para mudar de opinião. Porque se não, eu vou ser chamado de incoerente. Quando eu analiso as coisas com a mesma base de conceito, as pessoas começam a entender. Vamos a um exemplo na prática. Num jogo Ceará e Fortaleza, para ficarmos por aqui mesmo, numa transmissão da partida, eu também fazia a vez de comentarista de arbitragem, aqui não tem esse comentarista, como na Rede. Se o árbitro dá um cartão amarelo para um jogador do Fortaleza, por uma entrada desleal, e você concorda, muitos vão te xingar e dizer que eu torço Ceará. Mas 10 minutos depois, um jogador do Ceará leva amarelo por uma falta semelhante, e você também comenta que o árbitro acertou, aí a pessoa já começa a pensar: pelo menos ele foi coerente. Então, é isso. Um conselho para quem quer ser comentarista: seja honesto com você mesmo. Você tem de estar em paz é com a consciência. O que pensam de você é problema dos outros. Você não pode mudar a forma dos outros pensar de você.
Você começou como estagiário, passou por produtor, repórter, editor, chefe de redação… teve algum momento em que você pensou que não dava certo. Pensou em desistir?
Não. Tudo o que eu fiz estava correlacionado. Até estar aqui, nessa função atual, é fruto do que eu fiz nesses 27 anos de Sistema Verdes Mares. Claro que tiveram coisas que me agradaram mais do que outras.
Mas nada que fizesse tu pensar em sair…
Eu não falaria do ponto de vista da função em si. Às vezes, existem pessoas que são mais fáceis de você trabalhar, outras mais difíceis, pessoas que você gosta, outras nem tanto. No geral, eu me dei bem com todo mundo que trabalhei. Eu nunca deixei um inimigo para trás. Não há ninguém com quem trabalhei nesses 27 anos que não fale comigo e eu não falo com ela. Tivemos opiniões diversas em vários momentos. Divergimos, debatemos, eventualmente até subimos o tom, mas sempre dentro do profissionalismo em busca de defender uma tese de trabalho. O que eu posso dizer é que gostei de fazer mais coisas que outras. Na verdade, tudo foi experiência. Tudo embasou o que sou hoje. Tudo teve sua importância.
Você falou em coisas que te agradaram, quais…
Não foi a função, mas os momentos em que vivi. Por exemplo, eu adorava ser repórter, fazer reportagens, participar de uma cobertura de uma Copa do Mundo. Ah, acabei nem falando. Naquele momento em que você perguntou sobre minha passagem pelo rádio. Rapaz, o rádio me proporcionou algo fantástico. Em 1998, foi minha primeira Copa do Mundo e eu fazia a cobertura da Seleção Brasileira. Eu e o Victor Hannover para a Rádio Verdes Mares. Então todos os dias, eu pegava o carro, saía de Paris e ia para o CT onde a Seleção estava e depois voltava para o centro de imprensa, onde tinha o nosso estúdio. E lá, no dia a dia da Seleção, a gente conhece muitos companheiros de profissão. Aqueles ‘top de linha’, que você só ouvia falar, estavam do seu lado. Da Globo, alguns eu já conhecia, por já fazer matérias da rede, eu já tinha amizade. Mas pelo fato de ser um repórter da Verdes Mares, ou seja, de uma afiliada da Globo, me dava um certo espaço. E eu aproveitei esse espaço com o Galvão Bueno. Um dia, conversando com o Galvão, eu pedi a ele para facilitar uma entrevista com o Pelé. O problema é que o Pelé era super atarefado. Ele era comentarista da Globo, mas tinha compromissos com uma dezena de outras emissoras e patrocinadores. Então terminava o jogo do Brasil, terminava a transmissão, ele já se virava e começava a gravar em outros idiomas para outras emissoras. Então era quase inacessível chegar a ele. Fora aquele cordão de isolamento com vários seguranças ao redor. E além disso, ele é muito solicitado. Afinal, é a maior personalidade do futebol mundial, ainda mais na França, com os franceses loucos por futebol e onde ele é muito reverenciado. Aí eu falei com o Galvão. E o Galvão chegou para mim e disse: “Norões, faça o seguinte, quando terminar a partida e as gravações, tu encosta, fica perto que eu te chamo e te boto em contato com ele”. Então, o jogo foi Brasil e Noruega, em Marselha, jogo que o Brasil perdeu por 2 a 1. Eu já fiquei de mutuca. Quando terminou, eu já encostei na posição da Globo. E fiquei esperando. E esperei, esperei, esperei. Avisei ao Gomes Farias que a qualquer momento eu iria ligar (de celular), eu ligaria para o estúdio, de Paris, e o Mossoró (técnico dá rádio), me colocaria no ar. E eu disse para o Farias esticar a jornada com o Tom Barros que a qualquer momento eu entraria com o Pelé. E esse Pelé demorou e gravava e comentava. Enfim, o Galvão me chamou: “vou te apresentar o Pelé”. Chegamos do lado e o Galvão falou: “Pelé, esse aqui é o Paulo César Norões, da Rádio Verdes Mares, no Ceará, é nosso colega de Globo, ele quer fazer uma entrevista contigo”. O Pelé respondeu: “claro. Sem problemas, mas tem de ser rapidinho, porque eu tenho um compromisso”. Aí eu de imediato liguei para o Mossoró e disse que estava com o Pelé e tinha de avisar o Farias. Rapidinho eu já estava com o retorno da rádio e estava ouvindo o Farias comentar com o Tom Barros. Mas ele não chamava. Eu tive de pegar outro celular, ligar para avisar ao Farias que: o “Rei não espera, Farias”. Aí depois de um bom tempo, eu já agoniado, o Farias chamou. Quando ele começa: “Vamos direto com Paulo César Norões, que está com nada menos do que o Rei do Futebol”. Aí o Pelé olha pra mim e diz: “não vai dar para esperar. Eu tenho que ir”. Eu me desesperei. Disse para o Pelé que já estavam chamando, mas o Rei disse que não dava. Então eu perguntei se era possível ir com ele até o carro fazendo a entrevista. E o Pelé disse que não tinha problema. Aí resultado. O Farias me chamou e comecei a conversar com o Pelé. Nós descemos seis lances de escadas. A posição da cabine da Globo ficava lá em cima, era como se fosse o sexto andar. Descemos cercados por um cordão de segurança. A imprensa do mundo todo tirando foto. E eu do lado dele, porque estava fazendo a entrevista. E conversamos durante 12 minutos que só terminou no estacionamento perto do carro. Foi algo que o rádio me proporcionou. A mobilidade do rádio, a primeira copa com celular fez com que conseguisse essa entrevista. Mas só tem um lado negativo nessa história toda. Havia dezenas de fotógrafos do mundo todo registrando o Pelé. Mas eu não tenho uma foto. Infelizmente, eu não conhecia ninguém naquele momento, todos eles foram embora em seguida atrás do Pelé, e eu fiquei por lá, sozinho. Ainda comprei jornal no dia seguinte, para saber se havia saído alguma foto, mas não consegui. Enfim, foi algo sensacional. O Farias depois repetiu a entrevista outras vezes pelo valor que ela tinha. Afinal, foram 12 minutos de entrevista exclusiva com o Rei do futebol. E pra mim, que fazia minha primeira copa do mundo, foi algo grandioso.
E na vida particular? Você é casado? Tem filhos?
Sou casado. Há 25 anos. Completei agora bodas de prata com a Simone Morais (jornalista da TV Diário). O meu casamento também é fruto da minha profissão, porque eu conheci minha mulher dentro da redação. Eu já trabalhava aqui na TV, ela foi contratada, a gente se conheceu, namorou e se casou. Estamos até hoje juntos. Temos uma filha, que está para se formar…
Em Jornalismo?
Não. Mas não é por falta de vontade. Ela até diz que um dia ainda vai fazer jornalismo, mas ela está terminando Arquitetura. Enfim, foi fazer uma profissão menos maluca.
E vocês moram em Fortaleza? Tem pretensão de ir embora?
Sim, moramos aqui. Nasci e me criei em Fortaleza. Não. Não tenho vontade de sair daqui. Quando fui para a Globo, no Rio, em 1991, foi meu primeiro estágio lá, passei um mês. Não chegaram a fazer proposta, mas chegaram a perguntar se eu tivesse oportunidade para ficar no Rio. Eu falei que poderia até ser, mas eu havia acabado de casar, minha esposa estava grávida em Fortaleza, e eu não sabia se seria bom. Naquela época, talvez eu iria. Mas hoje, não. Teria de ser uma proposta muito boa mesmo. Eu gosto muito daqui. Apesar de todos os problemas que Fortaleza tem, é aqui que estão nossas raízes, nossos amigos, nossa família. É claro que pode pintar alguma coisa e a gente não pode dizer nunca. A gente tem de estar aberto a toda possibilidade, mas de caso pensado, eu não alimento isso. Eu sou muito feliz aqui em Fortaleza. Eu só queria que nossa cidade melhorasse para dar o mesmo carinho que a gente tem por ela.
Para fechar. Um repórter que você se inspirou.
Eu vou te dizer dois: Marcos Uchôa e Tino Marcos. Conheci os dois em 1991, no meu estágio no Rio de Janeiro. Trabalhei com ambos no dia a dia. Eles ainda eram jovens repórteres, mas já em caminho de consagração. São referências como pessoas e como jornalistas.
E comentarista…
Eu gosto muito do Lédio Carmona, do Maurício Noriega, do Rafael Rezende para falar nos que são do Sportv. Eu também gosto muito do PVC (Paulo Vinícius Coelho, do Fox Sports) é um estilo diferente. Ele é o cara da prancheta. Eu admiro muitos. Dos ex-boleiros, eu gosto do Júnior. O Juninho Pernambucano, dos ex-jogadores, é o que mais me agrada. E tem um que é uma grande surpresa. O Juninho nem tanto, porque ele sempre foi um cara muito inteligente, sério. A dúvida era saber se ele conseguiria passar o seu conhecimento para o público e está conseguindo. Mas uma boa revelação como comentarista tem sido o Roger, que era um bad boy, mas que conseguiu ser um bom comentarista. Tem outros em outros canais: o Bruno Formiga (do Esporte Interativo). É uma boa revelação. Enfim, eu acho que o meio da crônica esportiva cresceu muito. E cresceu em qualidade e em quantidade da qualidade.
Agora, sério, para fechar mesmo, deu para deixar um legado?
Eu sempre gostei de trabalhar com as pessoas mais jovens, com potencial. Que às vezes precisa só de um empurrãozinho, de uma lapidação para desenvolver. E graças a Deus, aqui na TV Verdes Mares, a gente conseguiu fazer bons profissionais. Antero Neto, que brilha no Sportv, é um bom exemplo. Os repórteres Luís Costa, Alysson Oliveira. Os dois de “fraldas” agora que eu peguei: o Caio Ricard e o Eduardo Trovão, que de fato, desabrocharam aqui na TV. São uns garotos muito bons. Com potencial de crescimento muito grande. É legal você ter uma equipe de qualidade. Não só um ou outro. Tinha determinado momento lá atrás, que as pessoas chegavam para mim e diziam: “rapaz, deixa de ser besta. Tu está botando gente aí que vai tomar teu canto”. Eu dizia que isso não existe. O sol nasce para todos. Quem é competente não vai ser substituído, vai é acrescentar. Então vai ter é espaço para todo mundo. Uma coisa que eu achava ruim, quando comecei, é que os espaços eram muito delimitados. “Só quem faz matéria pra rede é esse aqui”. “Não, isso só quem faz é esse ali”. Eu questionei: “por que todo mundo não pode ter chance?”. “Deixa a rede decidir se o cara é bom ou não”. Então eu sempre deixei esse negócio de oportunidade aparecer. O próprio (Fábio) Pizzato, quando chegou por aqui, ainda bem jovem, na primeira passagem. Ele foi uma pessoa que a gente procurou trabalhar. A gente criou um ambiente que propiciasse as pessoas a desenvolver seus talentos. Eu não ensinei as pessoas a ser o que elas são. Nem eu, nem Pizzato, nem ninguém. A gente deu orientações para que as pessoas desenvolvessem o talento que elas traziam. Essa é que é a função da gente. Orientar, corrigir determinadas situações, mostrar qual é o caminho. São essas coisas, principalmente quando a gente trabalha com os mais jovens, que você tem de ficar antenado para isso. E me dá muita satisfação, quando eu vejo um deles em transmissão de rede. Quando vejo o Antero trabalhando numa Copa do Mundo, numa Olimpíada é pra mim algo incrível. O sol nasceu para todos, principalmente para quem quer brilhar.

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