Em Uruburetama

Dezesseis anos de seus 36 de idade, a agricultora Maria Lúcia de Almeida Braga foi mantida em cárcere privada, em Uruburetama, a 120 quilômetros de Fortaleza. O cárcere terminou há 20 dias, mas somente hoje foi divulgado pela Polícia Cearense, que prendeu o irmão de Lúcia Braga, João Almeida Braga, de 48 anos, acusado de ser encarcerador da irmã. A agricultora foi mantida em cárcere desse quando engravidou em 2001. O irmão tão logo soube da gravidez de Lúcia Braga então com 20 anos, a encarcerou num quarto escuro.
No último dia nove de março, a agricultora foi resgatada pela Polícia, que preferiu somente nesta quarta-feira divulgar o fato, após a prisão de João Braga. O delegado da Regional de Itapipoca, cidade vizinha a Uruburetama, Harley Filho, revelou à imprensa que a agricultora teve o bebê em 2001 e que ele foi doado para outra família pelos parentes de Lúcia Braga.
Harley Filho destaca que em oito de março último recebeu a denuncia que uma mulher era mantida em cárcere privado em Uruburetama. "Fomos lá no dia nove e nossa equipe resgatou a vítima. Tivemos que romper dois cadeados e arames para tirar dona Lúcia Braga do cativeiro. Deu muito trabalho, pois para ter acesso ao quarto onde ela estava há 16 anos tivemos que passar por um terreno que tem três casas. Havia um terceiro cadeado na casa que estava a vítima. Quando entramos no quarto onde ela estava havia outro cadeado", relata o delegado.
Segundo Harley Filho, no quarto onde Lúcia Braga ficou encarcerada por 16 anos havia apenas uma rede e um pano de rede que ela usava como lençol. O compartimento não tem banheiro. "O odor de fezes e urina tomava conta do quarto", descreve o delegado. Conforme ainda Harley Filho, a agricultora não tinha roupas e era mantida no cárcere totalmente nua.
Nos depoimentos que colheu junto a familiares de Lúcia Braga, o delegado foi informado que ela comia duas vezes por dia. Uma refeição às dez da manhã e outra entre três e quatro da tarde. Segundo ainda relato dos familiares, "nas poucas vezes que alguém abria o cadeado do quarto, Lúcia Braga tentava escapar".
Harley Filho descreve que o cativeiro não tinha eletricidade ou som. "A única luz que entrava era pela brecha da janela, que também ficava fechada com um cadeado".
Logo foi resgatada, Lúcia Braga foi levada ao Hospital Municipal de Uruburetama. Lá recebeu atenção médica e encaminhada para os cuidados de uma família da cidade, onde está acolhida, passando bem.
Lúcia Braga, que durante o cativeiro perdeu o poder da falar, tem se comunicado pela escrita com a família que a acolheu. "Aos poucos ela vem recuperando a fala", informa o delegado.
Quanto ao filho de Lúcia Braga, a Polícia conseguiu localizar. Hoje é um jovem de 16 anos. "Vamos com calma conversar com ele para não gerar mais traumas", adverte Harley Filho.
"João Almeida Braga, conhecido como Joãozinho foi preso por cárcere privado e maus tratos. A pena para os crimes vai até oito anos de reclusão", destaca o delegado.
Sobre os pais de Lúcia e João Braga, Harley Filho, lembra que "eles são idosos e debilitados. Era Joãozinho quem cuidava das finanças da família e permitia a situação de cárcere da irmã", acusa o delegado.
Segundo o delegado, "o motivo para o cárcere é que Lúcia Braga seria mãe solteira e eles não aceitavam. Eles dizem que a encarceraram para que não engravidasse novamente".
Harley Filho colheu informações que antes de ser encarcerada, Lúcia Braga levava uma vida normal, em Uruburetama. "Mas ela teve um relacionamento e, após o fim do romance, apresentou problemas
psicológicos. Em seguida teve outro relacionamento e engravidou. Por isso, foi trancada e impedida de criar o filho", finaliza o delegado.

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